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“A pandemia é um teste de resiliência social e emocional”


Seja no hospital, seja no trabalho ou seja na escola, as ações coletivas de acolhimento às pessoas com consequências físicas e mentais em razão da Covid-19 precisam ser difundidas. Depois de praticamente dois anos de pandemia, esse é o entendimento em comum da médica e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, do psiquiatra da Universidade de São Paulo (USP) Arthur Danila, do reitor do Instituto Federal Fluminense (IF Fluminense), Jefferson Manhães, e também da reitora do Instituto Federal do Acre (IFAC) e mediadora do debate, Rosana Cavalcante dos Santos.


Os profissionais participaram, nesta sexta-feira (02), da mesa do “Eixo 4 — Cuidar de Si, Cuidar do Outro, Cuidar de Nós”, da 45ª Reunião Anual dos Dirigentes das Instituições de Educação Profissional e Tecnológica (REDITEC 2021), e retrataram a importância dos investimentos públicos e do trabalho em coletividade para reconstrução física e mental do “teste de resiliência social e emocional” por que passamos em razão da pandemia, segundo o psiquiatra Arthur Danila.


“Olhamos para o quanto as relações sociais vinham sendo e continuam líquidas, descartáveis. Tivemos pessoas que procuraram salvar-se de maneira muito individualista, mas com o advento da pandemia começamos a ter um grande desafio enquanto sociedade, de propiciar soluções de forma mais coletiva. Está claro que não é possível combater a pandemia, senão com um esforço coletivo. Ficamos mais vulneráveis ao esgotamento. Estamos descobrindo caminhos juntos”, afirma o psiquiatra, ao refletir sobre o conceito de “Modernidade líquida”, de Zygmunt Bauman.


Margareth Dalcolmo concorda e ressalta que nunca o ser humano precisou tanto de tanta competência e solidariedade. “As consequências, as sequelas da doença exigem serviços multi e transdisciplinares, pois exigem expertise de profissionais de áreas distintas, como médicos e psicológicos, para milhares de pessoas que passaram pela doença e não conseguem ou demoram para se recuperar”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.


Esse trabalho coletivo de recuperação física e mental também precisa ser foco nos espaços de trabalho, de sala de aula e de conversa dos institutos federais, ressalta o reitor do IF Fluminense. “Não podemos terceirizar o cuidado; precisamos cuidar um do outro. Nós temos que ter a consciência de que cada servidor, cada gestor, cada terceirizado tem que assumir o papel humanizador de escutar, conversar com o outro. Vamos fazer uma escuta ativa e, a partir daí, talvez percebamos que será necessário um acompanhamento mais profissionalizado. Nosso desafio é que sejamos uma comunidade de acolhimento, para além de uma comunidade educadora”, reforça Jefferson Manhães.





A importância da ciência durante a pandemia


Os três participantes do debate também defendem a importância da ciência, a necessidade de mais investimentos na área e do contato cada vez mais próximo com a sociedade. “Saímos desses quase dois anos com um profundo aprendizado, que nunca pensamos em ter. Nunca precisamos ler, estudar e aprender tanto”, afirma a médica e pesquisadora Margareth, ao defender que a pesquisa deveria estar recebendo mais investimentos. “Entretanto, estamos sofrendo vários cortes. E isso desestimula pesquisadores mais jovens”, afirma.


Para o reitor do IF Fluminense está claro que “a ciência ensina as pessoas a pensar, questionar, compreender que numa fala existe uma intencionalidade, um conjunto de elementos, e quem não gosta de questionamento não investe em ciência”, disse, ao relatar que voltaram para patamares de 20 anos atrás os investimentos na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDTC).


A realidade não fecha para o reitor, porque as pesquisas mostram uma sociedade brasileira com uma percepção mais positiva da ciência, do SUS e das instituições federais públicas. “Antes, em relação ao SUS tínhamos 42% de confiança; hoje são 62%. Antes, o percentual de confiança nas instituições federais de ensino era de 42%; hoje são 59%. E, na ciência, eram 47% e hoje são 70%. Então, não podemos nos descolar da sociedade. É a sociedade que fará que essas instituições sejam preservadas”, reforça Jefferson Manhães.


A aproximação com a sociedade é vista como algo extremamente positivo também por Margareth. “Quando nos expusemos e saímos dos nossos consultórios e hospitais, e dissecamos as informações complexas para que as pessoas entendam e possam reproduzir, começamos a nos aproximar e criar vínculos com a sociedade civil. É importante que essa sociedade entenda que existem todos esses profissionais de saúde, como psiquiatras, médicos, e também os pesquisadores”, ressalta.


O futuro da Covid-19 e de reconstrução


Nos últimos dias, a variante “Ômicron” tem preocupado diversos países. Porém, segundo a pesquisadora da Fiocruz, os vírus sofrem mutações o tempo todo. “Neste caso, ela é muito transmissível pelo número de mutações, mas não quer dizer letalidade”, afirma. Além disso, segundo Margareth, nada indica que as vacinas não são capazes de nos proteger. “E caso houver diminuição da proteção, pode haver vacinas de segunda geração”, reforça ao defender que essas vacinas foram o mais extraordinário feito na biologia nos últimos 20 anos.


“Nenhuma etapa da criação das vacinas foi burlada. Foram mais de 100 grupos trabalhando no mundo inteiro. E, ao mesmo tempo, nos últimos meses, novas moléculas de tratamento foram testadas. Então, sim, temos luz no fim do túnel. Sabemos que SARS-COV-2 não desaparecerá; provavelmente ainda precisamos de mais uma dose de reforço, mas os novos medicamentos podem mudar as regras do jogo e tratar 80% dos casos não graves”, ressalta a pesquisadora da Fiocruz.


Já numa abordagem de saúde mental, o psiquiatra Danila — que coordena o Programa de Mudança de Hábitos e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do hospital da USP — lembra que a pandemia restringiu, especialmente no início, muito do tempo e do espaço das pessoas, mas, por outro lado, o uso da tecnologia possibilitou muitas interações, e a pandemia possibilitou revisitar nós mesmos.


“Percebemos que não somos capazes de resolver todas as dificuldades do mundo, mas podemos, sim, olhar para nós mesmos. É muito importante nos dar a chance de revisar comportamentos, repensar práticas automatizadas. Isso pode nos trazer importantes considerações sobre a real importância de alguns comportamentos, a importância das conexões, e ter um olhar para nossa vida, para nosso propósito”, ressalta o profissional.


Por fim, no âmbito da educação, o reitor do IF Fluminense resgatou os cuidados de toda a Rede, em 2020 e 2021, para alcançar os estudantes, especialmente os mais vulneráveis, com inclusão digital e novas regras curriculares. Jefferson Manhães reforça que “não conseguimos virar a chave e voltar para março de 2020 — nosso estudante está diferente, nosso colega servidor está diferente, com novos papéis assumidos. Então, é fundamental que nós tenhamos essa capacidade de retomar vínculos, ter diálogo, acolhimento e compreensão”.


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